[Viajante sem pauta #027]Quando a torcida calou o coração
O chute que valia mais que a vitória
Fazia tempo que eu não aparecia por aqui. Com o foco voltado a outras coisas, acabei me afastando. Mas, aos poucos, tenho escrito meu livro no meu próprio ritmo. O formato e a maneira como vou retratar a viagem estão cada vez mais nítidos. A seguir, compartilho um capítulo vivido no Zimbábue, onde presenciei um campeonato de futebol e suas celebrações.
A Celebração
Entre os membros daquele vilarejo, havia Shelton — conhecido por ser o mais forte nos trabalhos pesados. Talvez fosse essa a razão para seus chutes potentes no futebol, paixão compartilhada por todos ali.
Certo dia, enquanto dividíamos tarefas no milharal, Shelton me convidou para assistir a um dos campeonatos da região da qual fazia parte. Tão logo aceitei, partimos minutos depois. O caminho até o campo passava por uma mata fechada e trechos de céu aberto, totalizando cerca de 8 km — distância que, àquela altura da viagem, eu já começava a ressignificar. Em terras africanas, meu conceito de “longe” e “perto” se dissolvia aos poucos.
Ao longo do percurso, uma coluna de fumaça se desenhava ao fundo. Pensei tratar-se de um incêndio, mas, ao perguntar, Shelton me corrigiu com um sorriso calmo: estávamos diante de uma das maiores atrações do continente africano — as lendárias Victoria Falls. A névoa que víamos era formada pelas gotículas das quedas d’água, que desenhavam sua presença mesmo à distância.
Enquanto andávamos a passos largos, perguntei a Shelton como funcionava o campeonato: inscrições, premiação e regras. Em um inglês entrecortado e recheado de gestos, ele explicou que a inscrição podia ser paga em dinheiro ou em galinhas, no valor equivalente. O prêmio? Uma cabra. E, para os demais colocados, o mesmo animal — mas em tamanhos e idades progressivamente menores.
Naquele dia, assistiríamos às quartas de final. O time do nosso vilarejo estava prestes a entrar em campo. Ao chegarmos, poucas pessoas ainda estavam por lá. Mas algo me chamou atenção: os trajes improvisados dos jogadores. Alguns usavam meias coloridas, outros, furadas. Muitos estavam descalços. Vestiam o que tinham. O campo lembrava um terreno de capim ralo, sem delimitações claras.
Quando os familiares do vilarejo me avistaram, vieram ao meu encontro com abraços intensos. Era como se minha presença, de algum modo, trouxesse sorte. “O brasileiro chegou”, alguém disse — como quem reconhece um amuleto.
Entre os jogadores, estava o jovem comandante Nkosie, filho do general Mpsi — treinador e também camisa 10 do time.
Com a bola rolando, me sentei ao lado de outros torcedores, num tronco antigo, quase centenário. Conversando com eles, percebi que havia algo maior em jogo além do troféu ou da cabra. Aquela competição também carregava o desejo de conquista — mas não apenas do título. O verdadeiro prêmio era o coração de alguém. E Nkosie, com os olhos atentos, mirava com precisão esse alvo invisível — que eu só viria a descobrir mais tarde.
Nos dias seguintes, o time avançou para as finais, e a disputa aconteceria em paralelo com uma das maiores celebrações do país: o Dia da Independência. Nkosie e os outros exalavam alegria nos dias que antecediam a partida. Era visível a ansiedade e a euforia dos meninos — e, durante as colheitas, o bom humor reinava. Por instantes, esquecíamos das dores físicas.
Chegou o tão aguardado Dia da Independência. A região inteira respirava festa — tanto pelo jogo quanto pela celebração nacional.
Vesti meu melhor traje e caminhei com eles rumo ao campo. Se nas quartas de final havia pouca gente, agora era o contrário: todo o vilarejo — crianças, adultos, idosos — tomava o mesmo caminho.
Eu, que nunca fui entusiasta do futebol, começava aos poucos a gostar e a sentir certo apreço pelo fato de o Brasil ser reconhecido por isso. Se antes eu relutava com essa associação, durante a viagem, e especialmente nos momentos em que o tema surgia, um sentimento de orgulho começava a brotar dentro de mim.
No local, uma multidão preenchia o campo. Havia de tudo: espectadores, vendedores ambulantes e crianças correndo entre as pernas dos adultos. A data da final com a da independência era proposital, e isso trazia o entretenimento para uma das datas mais importantes do país.
— Vai provar algo que certamente nunca comeu — disse um dos conhecidos da família
Nessa altura, eu já tinha vivido seis meses na África do Sul, e não faltavam restaurantes com carnes exóticas voltadas ao turista — javali, avestruz, jacaré, entre outras. Estava descrente de que poderia ser algo realmente inédito — ou de que meu amigo ainda pensasse que era meu primeiro contato com o continente.
Franzi a sobrancelha, cético. Até que ele completou:
— Teremos carne de elefante.
Antes que eu pudesse esboçar qualquer reação, retruquei, quase num susto:
— Mas... isso não é crime?
Eu sabia que existiam diversas forças-tarefa de proteção a esses animais. Foi então que meu amigo explicou: no Dia da Independência do país, Mugae — o então presidente — autorizava o abate de um elefante que, segundo os moradores, se encontrava próximo ao leito. Com esse gesto simbólico, alimentavam cerca de trezentas famílias naquele momento.
Fiquei extasiado — não pela carne de elefante em si, mas pela narrativa que ela me proporcionaria. Era o tipo de história para ter na manga. Para calar aqueles viajantes competitivos, sempre prontos a soltar um ‘olha só o que eu comi”. E se alguém viesse questionar se fiz algo ilegal, responderia sem pestanejar: foi dado pelo presidente.
Sim, Mugae me ofereceu. E assim o fiz. Um presente vencido — uma carne de cheiro pútrido e textura rígida, como se o tempo tivesse se impregnado ali, mordida após mordida.
O pedaço da carne exótica veio pelas mãos de Savee, servida numa vasilha de plástico, onde sua aparência era tão repulsiva quanto o odor forte e persistente. Cogitei saciar minha curiosidade visitando a cozinha e ver como era preparado um elefante. Mas antes mesmo de tentar me aproximar, fui barrado por Savee — dizia ser um local sagrado, até mesmo para o estrangeiro.
Enquanto meus caninos tentavam desfiar aquela carne dura, assistia à final acirrada do campeonato. O campo, desta vez, estava melhor delimitado pelas pessoas que se amontoavam em volta, formando uma verdadeira barreira humana.
O tempo seco não favorecia os jogadores, e a poeira levantada durante o jogo tampouco perdoava a torcida. A cada gol, a multidão invadia o campo em êxtase, e a vibração sob nossos pés me fazia questionar se as placas tectônicas africanas estavam mesmo desgastadas.
O jogo foi para os pênaltis. Atrás do gol, os prêmios — com uma cabra em destaque — lembravam o que estava em jogo.
Observei o capitão Nkosie ao longe: o nervosismo era visível. Os batedores eram decididos, e o olhar de Nkosie alternava entre a bola e uma menina na torcida. Seus olhos se cruzavam a todo instante. O que estava em jogo tinha um preço alto.
A torcida formava um semicírculo em torno do gol. A cada chute, gritos de euforia ecoavam para todos os lados. Chega a vez dele, Nkosie. Último chute, que decidiria a vitória — ou não. Ele toca sutilmente os lábios na bola enquanto as mãos tremem. Recua mais do que o normal e, a passos lentos, se aproxima.
PÁAAA!
O impacto da bola reverbera no campo.
O chute é tão certeiro quanto as mãos do goleiro, que a ergue vitorioso após a defesa.
O som do ambiente se torna mudo para Nkosie. Ele desaba de joelhos e esconde o rosto enquanto a torcida corre em direção ao rival para celebrar a conquista.
Talvez aquela garota, que contemplou o esforço do camisa 10, jamais viesse a saber que, nos bolsos dele, estava um pedido de casamento. E que, sem a vitória e a plateia, ele nunca teve coragem de acontecer.
Reviver
A história acima é baseada em fatos reais. Nesse processo de escrita, algo que tem me ajudado muito é literalmente fechar os olhos — sim, consigo escrever sem olhar para o teclado. Com uma trilha sonora ao fundo, vou redigindo e me transportando para lá. E depois vou lapidando. Espero que goste desse trecho e torcer pra conseguir finalizar o livro até Dezembro!






Bom demais Cainã!!! Bem legal a forma de contar a história. Fiquei triste pelo Nkosie. As fotos estão sensacionais, agregando uma cor incrível à história.