[Viajante sem pauta #021] Rumo ao Zimbábue
Quando um ditador...
Contexto
Se você é ouvinte do podcast ou acompanha meu Substack, sabe da longa jornada do livro que estou escrevendo. Ainda vai demorar, mas são passos de formiga, rs. Não tenho pressa. O texto abaixo é um trecho dele. E por que estou compartilhando isso? Para receber um feedback de vocês. Não postei muitos textos sobre o livro por aqui — acho que, no máximo, uns quatro até agora.
Abaixo, o momento se passa quando embarcava no ônibus em direção à fronteira de Zimbábue.
A autoridade da fronteira
O motor cessa, e o ponteiro indica três da madrugada. Minhas pupilas se dilatam com a luz repentina e com os estalos das vértebras. Nenhuma palavra entre os passageiros—somente os passaportes, que assumem seus estrelatos, empunhados à mão. A primeira fronteira nos espreitava.
Ao descer do automóvel, deparo-me com casebres em tons fúnebres e filas gigantescas que intimidariam até os viajantes mais experientes. O único som que rompe o silêncio é o caos do comércio na escuridão.
Sem placas ou orientações claras sobre para onde seguir, decido acompanhar os passos dos amigos com quem conversei sobre futebol durante a viagem. Sigo-os e, sem grandes dificuldades ou longas esperas, obtenho o visto de saída da África do Sul. Com o carimbo estampado, sigo rumo ao território do Zimbábue.
O prédio é todo de madeira. O cheiro de verniz preenche o ambiente, enquanto o chão de assoalho range sob nossos passos. No mural de informações, um cartaz captura minha atenção: "Favor não colocar dinheiro dentro do passaporte ao entregar ao oficial. É ilegal."


Ao chegar minha vez com a autoridade, ele arrisca algumas palavras em português ao notar minha camisa da seleção. Recebo os documentos para obter o visto, enquanto sua voz ao fundo enaltece seus jogadores favoritos. Mas, repentinamente, a simpatia amistosa do policial se dissolve. Lá fora, nossas bagagens são inspecionadas. Aqui dentro, numa brusca mudança de cenário, sou escoltado pelo corredor por outros dois guardas de passos descompassados.
Não compreendia o motivo por trás daquilo, apenas seguia as ordens. Era conduzido entre as estreitas paredes de um longo corredor, sob forte vigilância. Em cada perímetro, quadros opulentos de generais e comandantes pareciam perseguir meus passos com seus olhares imponentes. No reduzido espaço, uma bandeira do país, hasteada com orgulho, era a única fonte de cores vibrantes. Sob ela, um rifle repousava sem proteção.
Enquanto ponderava sobre como uma arma daquela magnitude estava ao meu alcance sem qualquer objeção aparente—exceto pelo retrato destacado do ditador Mugabe na sala—, a porta metálica se abre bruscamente.
O chefão
O solado da bota ecoa como um prenúncio de que o chão de madeira cederia sob seu peso. O brutamontes, de bigode ralo, lança-me olhares furtivos, sem proferir uma palavra sequer. O silêncio de seus movimentos é preciso. O simples clique da caneta, uma baforada de nicotina ou até mesmo sua respiração profunda indicavam que eu estava diante de algo sério. Confrontá-lo seria o ápice da insanidade; suas condecorações no peito não deixavam dúvidas. Eu estava diante da maior autoridade da fronteira.
— O que faz aqui? — ele pergunta, erguendo-se da cadeira como se já soubesse a resposta. Sua voz autoritária é tão imponente que os objetos parecem se mover sobre a mesa.
— Estou viajando a turismo — respondo, enquanto o oficial estufa o peito e aproxima o rosto rente ao meu.
— Mentira! — o grito estoura meus tímpanos, e levo alguns segundos para me recompor.
— Onde está sua autorização como jornalista? — sua expressão se torna ainda mais séria e desconfiada. Agora, as peças se encaixavam. Num país governado por um ditador, eu representava uma possível ameaça ao regime quando, inocentemente, preenchi a ficha com minha profissão: jornalista. Eu era um suspeito.
— BBC? CNN? Para qual dessas você trabalha? — ele vocifera.
— Não, não trabalho para elas. Sou do Brasil. — respondo em inglês, e, inconscientemente, começo a impor minha voz de radialista.
— Trabalho numa rádio de música... — improviso, imitando jargões da rádio sul-africana que ouvia, tentando desassociar minha imagem do estereótipo de jornalista investigativo.
O gigante cessa as perguntas, franze a sobrancelha e recosta na poltrona. Folheia alguns documentos apenas para passar o tempo e, após segundos arrastados de silêncio, a quietude se quebra. Seu tom, antes intimidador, agora ressoa benévolo.
— Você é brasileiro e sua voz é muito boa, garoto. Acredito que esteja falando a verdade.
Consegui arrancar-lhe um sorriso entre dentes amarelados.
— Mas te aviso: sua profissão não é bem-vista por aqui. Vocês distorcem o que realmente ocorre. Meu conselho: mude de profissão.
Com a morte do jornalista, também morria o código de ética. Agora, Cainã, professor de história, nascia.
Harare – A Capital
O medo se instalou ao me deparar com um mundo desconhecido, frequentemente retratado nos piores cenários pela mídia tradicional.
Ao chegar à rodoviária, fui cercado por taxistas que rapidamente formaram uma muralha ao meu redor. Sem conseguir encontrar uma saída, uma mão divina surgiu como uma intervenção no meio das incessantes ofertas. Com a postura de uma verdadeira amazona, puxou-me pelo braço e discursou em um dialeto incompreensível, deixando os motoristas atônitos e paralisados, como se fosse magia.
— Venha comigo!
Meu instinto falou mais alto, e apenas a segui.
Seu nome era Ziura. Seu traje contrastava com os das demais mulheres. O brilho dos brincos e das joias a destacava na multidão. Acompanhei-a até o veículo, que, para minha surpresa, não era dela, mas de um taxista de confiança.
Dentro do carro, fizemos as devidas apresentações. Eu, professor de história. Ela, viúva.
Durante o percurso, ela dialoga com o taxista e o instrui sobre o meu endereço. Enquanto o rádio toca músicas de cunho religioso, atento-me a um mundo que nunca me foi apresentado nos livros da escola. As cores vibrantes das silhuetas femininas contrastavam com a paisagem debilitada de um território em constante crise. Poucos prédios na capital bastavam para torná-los pontos de referência na metrópole.
Nas ruas, o espaço era disputado entre veículos e o comércio ambulante. A destreza dos vendedores captava a atenção de qualquer viajante. Eles ziguezagueavam entre a maré de carros, equilibrando com maestria longos baldes e vasos sobre as cabeças. Deslumbrava-me o controle corporal e a habilidade em gerir suas vendas, quase sempre carregadas de simpatia, fosse com os estrangeiros ou os locais.
Hipnotizado pela novidade de saciar todos os sentidos, sentia-me como um cachorro perdido solto no parque, farejando loucamente. Meu olhar capturava os pequenos detalhes: os produtos expostos ao céu aberto, o aroma da carne misturado com a fragrância do carburador, as propagandas de fumo nos grandes outdoors – mais tarde, descobriria que aquele era o maior país do continente a exportar tabaco.
No entanto, meu transe foi interrompido por Ziura, que, ao direcionar-me um olhar seguido de um toque tímido, revirava sua bolsa. Uma fotografia desprovida de cores saltava em sua mão. Seus dedos percorriam delicadamente a imagem de um homem viril, vestido com uma farda.
continua………
lembretes e resenhas
Bem, espero que tenham gostado de uma pequena parte desse livro em andamento. O trilhar pra esse livro sair é longa, mas um passo de cada vez rs. E pra concluindo essa newsletter, quero sempre lembrar vocês e recapitular:
Verem os eventos do podcast na pagina do site
Incentivar vocês pra ingressarem na roda do livro
Voltaremos com o encontro dos jogos, a data já foi enviada no e-mail
Teremos o primeiro papo de fotógrafo com o Edu, conto com a presença de vocês, pra que esse projeto siga adiante
Lembrar que temos nossa viagem pra Chapada Diamantina, não haverão outras. E o custo dela é totalmente operacional.
Estaremos no evento Festival da Montanha em São Bento do Sapucaí, mais infos aqui.
A partir de 1º de março, o valor da comunidade será reajustado, mas apenas para novos membros. Se você já faz parte, nada mudará!
Se você ainda não entrou, essa é a sua chance de fazer parte agora e garantir o valor atual antes do ajuste. Não deixe para depois!
E pra não perdemos a tradição, os encontros que rolaram entre os membros da comunidade por esse mundo.



1 Andriel e Baiá desafiando o monte Aconcágua na Argentina
2 Bruno, Marcella e Caio extravasando no esquenta do carnaval em SP!
3 Gabriel, Edra e Cleusa nas terras egícpcias!
Me despeço por aqui, e nos vemos nos encontros!






Adorei o texto, me prendeu a atenção e tinha detalhe suficiente pra conseguir imaginar a situação (no sentido de transformar as cenas em imagens mesmo kkkk). A dúvida que ficou é se o professor de história também não seria perseguido num regime desses :P
está muito interessante sua escrita. De um jeito que nos faz imaginar e ver a cena quase como se acontecesse ao vivo na nossa frente.