Sem edição
Um movimento comigo mesmo
5 de Dezembro.
O coreto da cidade se tornou um espaço da escrita. Aqui contemplo a vista da cidade, e o interior tem me feito bem. Mesmo estando no centro, me apazigua. E a certeza que pretendo ir pra roça fica mais evidente.
Dias atrás foram dias bem ruins, sabe? Pra não dizer aqueles em que só quero existir. Não sei ao bem o motivo. Talvez as tantas inseguranças, e as perguntas ao relento. Mas escrever aqui no diário tem sido de grande ajuda. Ver minha caligrafia, sentir a caneta e, na velocidade que a musculatura do punho me permite, escrever, tem me desacelerado e me deixado mais presente.
Recentemente tive o encontro da comunidade do podcast.
Foi tudo incrível. Pessoas se divertiram, deram risadas, conexões foram feitas, momentos pra guardar na memória, mas nos dias seguintes, algo em mim não estava certo. Um vazio que, por dias, me acompanhou. Me sinto confuso: um momento de alegria, de conexões… e no fundo eu saio com vazio?
Vou caminhar ali.
Até breve.
8 de dezembro
Reguei as plantas e acabei de acender um incenso de cravo pra escrever aqui. Foram dias de muito silêncio. Acho que cheguei a uma resposta plausível do porquê os dias terem sido estranhos e os sentimentos, diria que melancólicos. Acredito que foram anos acumulando algo dentro de mim, que não correspondia muito em quem sou. E talvez o ápice de sustentar algo que no fundo não era eu na essência, eclodiu no pós encontro do podcast. A ansiedade por muito tempo andou de mãos dadas comigo, em alguns momentos intensas e perceptíveis, e outras a paisana, mas sempre ali. E tem ficado claro o quanto era uma busca por validação externa. Como se eu esperasse o outro me responder pra eu existir, ou se o outro aprovasse e assim de certa forma eu conseguisse relaxar. No fim, a “paz” só resolvia aparecer se o outro gostasse.
Reli alguns livros sobre mente e espiritualidade e reassisti a alguns vídeos. Curioso como, na época, não me tocaram tanto quanto agora. Mas uma frase me pegou de jeito, como se tornasse claro todo aquele sentimento que ainda não tinha palavras pra expressar. Então ela veio:
“Quando quero ser aceito por alguém, é porque a primeira grande regra eu não aceito quem sou.”
Vamos começar juntos Cainã? Respira, feche os olhos, e que uma linda e nova caminhada comece. Não é tarde.
11 de dezembro
A ansiedade sempre esteve comigo em doses altas, vamos concordar Cainã? O vitiligo está aí pra lembrar, não é mesmo?
Tenho estado cansado de viver em vigília comigo mesmo — do que os outros vão pensar de mim, de tentar ser aceito. Talvez o copo tenha transbordado. Alias, deixa eu me corrigir, ele transbordou de fato.
É um sentimento de quase como se eu precisasse que os outros me autorizassem, me validassem.
Como se a importância tivesse que vir de fora.
12 de Dezembro:
Bom dia, diário!
Não sei explicar se são os planetas alinhados, ou meu signo
(risos contidos de mim mesmo, eu sei… rs), mas algo interno tem me movido de uma forma inexplicável.
Sabe quando dizem que, ao chegar no fundo do poço, algo surge?
Não acho que cheguei lá no sentido imaginário da coisa,
mas talvez tenha alcançado esse fundo no jeito como eu me relacionava com as pessoas e com o mundo.
Diria que minha energia vital se exauriu. E, pra reenergizar essa bateria, digamos que troquei a pilha. Tenho me descoberto mais tímido, até introspectivo. Talvez até mais contemplativo. E, curiosamente ou não, me sinto mais leve com as adversidades que a vida tem apresentando.
15 de Janeiro:
Quantas coisas não é mesmo? Talvez pela primeira vez na existência eu tenha conseguido de fato me sentir mais leve. Tem sido dias difíceis, mas a escrita aqui tem sido um grande aliado em colocar tudo pra fora. Descobrir minhas sombras ( ocultadas aqui na News em prol de algo intimo ) e acolher elas de forma a querer almejar quem eu quero ser.
E cá entre nós, não é fácil. Mas tenho me feito a pergunta quando o medo aparece, ou sentimentos parecidos. E uma das coisas que anotei pra visualizar diariamente e como lembrete foi uma frase durante minhas leituras:
ansiedade = insegurança = autoconhecimento
19 de janeiro:
Muitas coisas melhoraram de lá pra cá. São passos pequenos, e foi bom elucidar alguns deles aqui, pra lembrar que toda mudança é lenta.
E sabe, Cainã, como você escreveu dias atrás, o autoconhecimento requer movimento. Aliás, tudo na vida parece é sobre isso: vibração, movimento, frequência. Já dizia Tesla. E não faltam fontes que dizem o mesmo.
Se eu fico na inércia, praticamente tudo que permeia minha vida estagna.
E nessa jornada de autoconhecimento (olha que doido… ainda me sinto ridículo falando essa palavra, como se fosse coisa de coach, clichê, ou algo meio “gratiluz”). Mesmo assim, escrevo, porque é importante materializar o que passa pela mente. Depois eu entendo melhor por que isso ainda me gera desconforto, talvez receio do julgamento alheio, do que vão pensar. Olha os gatilhos aí.
Mas voltando ao fio da meada: tenho feito alguns movimentos. Porque, se quero me tornar aquela pessoa, não tem como fugir, é ação, é movimento.
Agora vamos à parte cômica? Tenho ficado muito sozinho comigo mesmo. Não sei se gosto disso ou se apenas aprendi a lidar com a solidão. Arrisco dizer que me adaptei, dadas as circunstâncias.
Nesse tempo de autoestudo, tenho medo de escorregar para o isolamento. Isso me assusta sabe? Sei da importância do contato humano, de estar de frente com pessoas diferentes, de trocar. Isso nos enriquece como seres. E, cá entre nós, diário, tenho cogitado adotar um cachorro ou um gato. Esse sentimento tem ficado cada vez mais forte.
Tive dois gatos por alguns meses na outra cidade, mas, por questões práticas e pessoais, eles acabaram indo pra roça, onde meus pais têm um cantinho. Me alegra que estão felizes lá. E lembro como era gostoso o sentimento de amor pela Zahira.
Ela dormia sempre com a cabeça literalmente no meu rosto. Eu acordava xingando quando ela mordia meu pé ou saltava sobre mim logo pela manhã, me fazendo tomar um susto. Mas nada era mais acolhedor que sua presença constante no colo e na mesa enquanto eu passava horas no notebook.
A Zahira me tirou da solidão e preencheu um sentimento de reciprocidade.
O amor.
E falando em amor, na sua forma mais abstrata: tenho sentido, acho que pela primeira vez, a vontade de estar com alguém. Partilhar e trilhar algo junto, sabe? Isso até refletiu nas viagens. Em alguns momentos me senti incoerente com o que faço e produzo, mas, no fundo, entendi que, nessa liquidez e mutações da vida, o que eu gosto também é escutar. E cada vez mais tenho apreciado a escuta e ficado mais em silencio.
Estava falando de como isso afetou as viagens: não estou numa fase de viajar sozinho, pelo menos não agora. E aí vem o movimento: baixei um app de date. Pois é, seu Cainã…( risos silenciosos da época do frisbee quando fazia piada sobre, era um Cainã, pré África )
Fiz o perfil, escrevi ali, coloquei energia naquilo. Mas algo me travou. Não deslizei pra lado nenhum. Nem pra esquerda, nem pra direita. E aqui sendo sincero, como sempre. Não faço juízo de valor de quem usa, acho uma ótima ferramenta quando bem utilizada , mas não é pra mim. Ao menos não por agora.
O app está numa subpasta do celular, como uma forma de colocar intenção em algumas áreas da vida. Não tem aquele ditado que escuto dos amigos? Quando você procura, não acha.
No fundo, o amor ainda me é muito abstrato na sua forma. Nunca namorei e, sendo honesto comigo mesmo, não desenvolvi habilidades ou inteligência emocional nesse território. Me sinto atrasado, como se fosse o fim, isso passa pela cabeça, mas devagar tenho ressignificado isso.
Me sinto como uma criança, na mais pura inocência. Não sei flertar, nem jogar qualquer “jogo” que se espera de uma figura masculina. Verbalizar isso aqui tem sido de grande ajuda, e me permitir ser mais eu do que nunca. Aceitar isso dói, mas cada vez mais melhora quem quero me tornar. Foram tantas máscaras, tantas performances sociais.
No fundo, Cainã, acabou se distanciando de você mesmo.
Lembro que a única vez em que me declarei abertamente foi escrevendo uma carta de quatro páginas. Colocando cada sentimento, momento e tudo que eu sentia por ela. Eu não sabia como dizer de outra forma. Éramos grandes amigos. Ela nunca me respondeu.
Dado esse fato, nunca mais expus meus sentimentos, e hoje percebo que aquilo me traumatizou.
27 de Janeiro
Um chá de camomila acompanha a escrita. Tenho me conectado mais comigo, me conhecendo melhor. Isso vai desde saber meus valores e a importância da integridade, pois isso tem me ajudado a me guiar na vida em várias frentes: trabalho, amor e relações. Em paralelo, tenho olhado para as minhas sombras.
Quando uma versão ruim de mim aflora, no caso, os pensamentos, tenho me abraçado e acolhido esse aspecto, tentando entender o porquê deles. É inacreditável como abraçar a mim mesmo gera um efeito de arrepio, com uma pitada de ternura. Acho que deve ser isso: amar-se e entender que isso faz parte da jornada.
Dias desses, comecei a gravar a retomada do podcast. Foram dois episódios presenciais. E eu não podia estar mais feliz! Fiquei apenas um pouco apreensivo com a edição do áudio, pois se trata de uma nova configuração. Em um deles, o áudio vazou, então vou precisar aprender novas técnicas. No fundo, me sinto desafiado a aprender algo novo. Acho que eu precisava desse movimento. Creio que tudo tem seu momento, e aqui me refiro a começar a ter vídeos e gravações mais presenciais.
Gravar presencialmente me fez bem. Saí daquela solidão de que falei. As coisas parecem estar fluindo com uma dosagem maior de leveza comigo mesmo. Olha o movimento acontecendo.
A grande diferença é que tenho estado mais presente e entendido melhor meus sentimentos, permitindo sentir e trazendo razão ao porquê deles. No fundo, Cainã, seja você, sem máscaras sociais ou a necessidade de agradar. Isso te cansou, não foi? Você sabe quantas vezes voltou de um evento ou encontro e o vazio apareceu. Agora, bem menos.
Talvez eu esteja mais introspectivo e falando menos. Pode ser uma fase? Não sei a resposta agora, mas estou apreciando esse momento. Sentir o presente. Vou ali escrever em algum guardanapo, em alguma cafeteria ou padaria.
30 de Janeiro
Uma das coisas desse processo de autoconhecimento foi uma frase que fixei para visualizar:
A verdade liberta, dói, machuca, mas é o caminho mais seguro.
De lá pra cá, tenho investido em ser sincero comigo. E, como movimento em prol de ser uma pessoa mais verdadeira comigo mesmo, contei uma mentira que eu havia dito para um dos meus amigos. Nada que o afetasse diretamente, mas fiquei feliz comigo pela facilidade em falar isso para ele, sem pensar no que ele iria achar.
Tenho entendido que a verdade não é apenas uma informação externa, mas uma jornada interna. Mas vai com calma, hein, Cainã. Nesses tempos, tenho aprofundado o entendimento sobre minhas qualidades e defeitos. E, quanto a este segundo, é preciso assumir a responsabilidade pelos próprios atos e deixar de ser vítima das próprias emoções e medos.
Porque, se tem algo que está muito claro, é que não tenho negado a verdade em muitas esferas da vida — e verbalizar isso dói, machuca. Não esqueço que, dias atrás, falei em voz alta, sozinho:
— Você negligenciou isso. Por que fez isso com você mesmo?
— O que precisa ser feito, Cainã? Quais são minhas responsabilidades e quais erros assumo na minha vida?
Existe uma lista escrita a partir dessas perguntas, mas ela fica omitida aqui para preservar o íntimo.
E, para encerrar rápido aqui no coreto, até porque as nuvens estão chegando e vai cair o mundo, tenho pensado em ações que ajudem nesse autocuidado e em me tornar aquilo que almejei. Para me desapegar, cogito publicar algumas partes do diário.
Por quê, Cainã? Porque penso que começar o ano sendo sincero comigo mesmo, na escrita, é por mim. A internet é tanta performance de status, alcance e imagem, e sou afetado em maior ou menor escala por isso, que partilhar o que há de mais sincero nos meus pensamentos se torna um movimento importante. É vibrar com sinceridade, e sei que isso vai me ajudar na empreitada desse novo ciclo.
Ah, e o aplicativo de dates está na subpasta. Depois deleto? Não sei ainda.
Obrigado pelas páginas, diário. Me vou. já tem gotículas respingando aqui…
31 de Janeiro
Ontem fiquei pensando se fazia sentido postar alguns trechos do diário e colocá-los na internet.
Por que pensei nisso, Cainã?
Bem, acho que se quero começar a ser verdadeiro comigo mesmo, abrir uma pequena parte do meu diários sem edição, no meu mais íntimo e sincero, é um movimento comigo mesmo e com o universo sobre como quero traçar minha vida daqui pra frente.
Ser honesto comigo mesmo tem doído. Reconhecer minhas mazelas, ver quais responsabilidades eu estava, e ainda estou negligenciando. Mas esse processo tem me abraçado, com ternura e perdão comigo mesmo.
Meus olhos lacrimejam agora. Não poderia ser mais sincero do que verbalizar isso e sentir uma mistura de alegria e dor.
Obrigado, diário, por mais um dia de vida e aprendizados.



Nunca esqueço da frase que um dia saiu no meu caderno: "A escrita dói porque é como se encarar no espelho sem poder desviar o olhar" ❤️🩹
Nosso canto é um refúgio importante e encarar o olhar do outro é algo que dilacera. Por pior que seja, não vale a pena representar no teatro da vida. Estamos aqui pra ajudar dividir o peso da mochila.